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A adolescência continua sendo uma das fases mais fortes da existência humana. A descoberta de um mundo maior, novas sensações, novos desejos... tudo fica diferente neste momento da vida. O corpo muda, as percepções mudam, descobre-se o sexo, os desejos, o amor, as dificuldades de se relacionar... quando criança, bastava brincar e tudo estava resolvido. Como jovem, parece que nada basta, tudo é confuso, complicado, difícil... mas, ao mesmo tempo, tudo parece fácil, descomplicado e fascinante. O jovem descobre as coisas com a curiosidade de uma criança e com a falta de responsabilidade do adulto - uma descontração e, ao mesmo tempo, uma angústia que dificilmente podem ser repetidas.

A mistura de descontração e terror seria aproveitada em 1978 com o filme Halloween, de John Carpenter, onde um grupo de típicas adolescentes é atacado por um psicopata, o que abriria o "filão" de filmes do mesmo gênero (Sexta-Feira 13, A Hora do Pesadelo e os atuais Pânico, Pânico 2 e Pânico 3). Um pouco antes do clássico de Carpenter, Brian de Palma também buscou inspiração no mundo adolescente, mas não sob a ótica da descontração, mas sim sob a ótica da angústia. O que faria uma adolescente problemática se tivesse poderes paranormais?

O diretor havia feito uma série de filmes fortíssimos e estranhos, mas sem conseguir um grande sucesso: em 1973, fez o hitchcockiano Irmãs Diabólicas (Sisters), onde Margot Kidder vivia o papel de "duas irmãs" siamesas que foram separadas, ou melhor ainda, vivia os reflexos de sua irmã - morta na operação de separação; em 1974, mostrou ao mundo o musical O Fantasma do Paraíso (The Phantom of the Paradise), misturando rock'n'roll, surf music, o Fantasma da Ópera, o Retrato de Dorian Gray, entre outras referências. Mas foi com o não menos estranho Carrie, a Estranha que Brian de Palma atingiu o sucesso e o estrelato. Carrie, a Estranha foi a primeira obra de Stephen King a ser levada para o cinema, bem como foi seu primeiro best-seller. Carrie White (interpretada de maneira sensacional por Sissy Spacek) é uma adolescente tímida e contraída, filha de uma fanática religiosa (Piper Laurie, magnífica), sempre hostilizada pelas colegas, mas que possui poderes paranormais, podendo mover objetos de acordo com sua vontade.

Numa das cenas mais poéticas e selvagens da história do cinema, Carrie menstrua pela primeira vez no chuveiro do vestiário da escola: a câmera lenta mostra seu banho, unindo a queda da água do chuveiro com o escorrer do sangue nas suas pernas, a surpresa de Carrie pelo que ocorreu e, imediatamente depois, o seu terror por não saber do que se tratava. Desesperada, ela tenta procurar ajuda de suas colegas que, por sua vez, a humilham. Voltando para casa, é repreendida pela mãe - agora ela possuía o pecado de ser mulher. Com remorsos pelo que aconteceu, uma de suas colegas, Sue (Amy Irving, a futura mulher de Steven Spielberg) decide fazer com que seu namorado, Tommy (William Katt), um dos rapazes mais disputados pelas garotas na escola, leve Carrie no baile de formatura. Neste ínterim, a professora de educação física suspende Chris (Nancy Allen) do baile que, junto com seu namorado (John Travolta antes do sucesso espetacular de Os Embalos de Sábado à Noite - Saturday Night Fever, 1977), prepara para vingar-se de Carrie.

Carrie, dominando melhor os seus poderes, impõe sua vontade à sua mãe, indo no baile com Tommy. No baile, o casal é eleito como os reis da festa e, na hora da premiação, são banhados com um balde cheio de sangue de porco - a vingança de Chris concretiza-se. Segue-se então uma das seqüências mais violentas da década de 70: Carrie, sentindo-se humilhada, usa seus poderes paranormais e destrói a escola e a cidade, matando quase todos que estão na sua frente - o uso do efeito tridimensional, ou seja, várias telas se abrindo e mostrando várias coisas acontecendo ao mesmo tempo para o espectador foi excepcionalmente utilizado. Voltando para sua casa, tem de enfrentar sua mãe, em outra seqüência espetacular de suspense, terror e violência.

.Criticado na época por seu excesso de violência, o filme apresentou muito mais do que devastação e sangue (foi utilizado xarope nestas cenas): a fragilidade e os elevados poderes de Carrie foram magistralmente retratados, criando a tensão necessária para prender o espectador por todo o filme. O enredo vai crescendo de tal maneira que fez com que a "resposta" da personagem, "esmagada" por sua mãe e por todos à sua volta, tivesse sentido. O final acrescentado ao filme (Sue, a única sobrevivente, sonha que uma mão sai da cova de Carrie e a agarra) é diferente do livro de Stephen King, chegando a assustar o próprio, que não o conhecia até a exibição do filme.